quinta-feira, 14 de maio de 2009

Tudo dominado


Coisa que nunca me preocupou muito foi violência urbana, com seus índices de crescimento, suas manchetes. E a razão disto é que a cidade em que vivo, Pelotas, apesar de pobre e contar com um bom contingente de marginalizados nunca foi conhecida por sua criminalidade. Homicídios? Em sua forma culposa, ou talvez por motivação passional. Eventualmente um latrocínio. Mas o crack mudou isso.

Não sei dizer quando começou, acho que ninguém sabe com certeza, mas fato é que a cidade não é mais a mesma. Nos quatro primeiros meses do ano já morreram vítimas da violência urbana a totalidade do que no ano passado esta mesma violência vitimou. E em comum a quase todos os crimes a maldita da pedra pode ser encontrada, direta ou indiretamente. Além da violência contra a vida, os furtos na cidade também decolaram. Desde tampas de bueiro, lâmpadas, roupas de varais até furtos em residências (com os residentes dentro) qualquer coisa que pode ser carregada é alvo de viciados desesperados. Desesperados e armados.

A tal da violência urbana que nunca me tirou o sono, nunca me preocupou, afinal chegou até a porta de casa, literalmente. Na esquina, um bar que fornecia os vícios que qualquer bar suburbano oferece em tempos de normalidade, como maconha e cachaça, começou a vender pedra. Ali compram e ali fumam. Durante a noite às vezes ouvimos tiros. “Alô? Polícia? Tão dando tiro aqui na frente de casa.” Mas a polícia nunca vem, e nas vezes que resolvem aparecer já passaram várias horas. Ou já amanheceu. Mas com um salário de 700 pila eu não culpo os brigadianos, sei bem como é sensação de colocar o seu na reta com um 38 enferrujado e colete balístico com validade vencida.

Até o momento todas as casas da rua foram invadidas, furtadas, roubadas. Acho que logo chega nossa vez. O que fazer? Pouca coisa. Vamos colocar grades nas janelas do fundo e tentar isolar o andar superior. E esperar. Com sorte só levam algumas bugigangas para trocar por crack e nos deixam inteiros. É estranha a sensação de solidão que a situação promove: em uma cidade com quase meio milhão de habitantes, estamos todos sozinhos quando anoitece.

5 comentários:

PoPa disse...

A violência urbana é resultado direto da falha em muitos setores da sociedade, começando pela leniência com a delinquência juvenil, passando pela falha das escolas, dos pais e chegando à falha total da sociedade em conter o uso e o tráfico de drogas. Aos apologistas da liberação das drogas, fica o alerta: não é somente o tráfico. As pessoas perdem referenciais da vida em sociedade quando caem para o lado das drogas. Há que ser feito algo. E urgente! Mas não se vê nada em um horizonte próximo. Precisará ficar muito pior...

Charlie disse...

Existem drogas e drogas. Maconha nunca causou o estrago na sociedade como o crack causa. Nem cocaína. Nem heroína. Nem ecstasy. Nem LSD.A droga de preferência dos bandidos chinelões de poucos anos atrás era a boa e velha cola de sapateiro, vendida por valor desprezível. E em virtude disso não havia a necessidade de promover tanta violência para adquirir a tal cola.

O crack pode parecer barata a primeira vista, mas não é. Um vagabundo que se vicia na substância precisa de várias fumadas ao longo do dia, e a 5 pila a pedra não precisa ser um gênio para adivinhar como termina a história.

Imagino que no momento a demanda por drogas convencionais esteja diminuindo, assim como a oferta. Um adolescente idiota, querendo maconha ou cocaína, procura o traficante usual. "Bah, to só com pedra agora". O adolescente idiota, justamente por ser idiota, provavelmente vai comprar o crack pra curtir uma noite super-agitada com seus amigos super-transados.

E assim a droga da periferia, da chinelagem, por uma questão meramente mercadologica chega até a classe média, alta. E logo o crack é um problema de todos.

Não fossem todas as outras drogas, fora o alcool, proibidas talvez fosse mais fácil combater aquelas que realmente importam.

Anônimo disse...

Isso está ligado à migração, Charlie? É triste pensar num sul se rendendo assim à realidade brasileira.

Não sei se o policial militar pode usar o baixo salário como pretexto para falta de ação. Ninguém entra para a polícia com intenção de ficar rico, ou ao menos não deveria. Quem ingressa na corporação sabe os riscos que está assumindo. Isso não significa que os vencimentos insignificantes do brigadiano sejam aceitáveis, mas também não justifica qualquer possível falta de ação de sua parte.

Vendo o avanço da violência por aí, você se arrepende de ter deixado a polícia?

Charlie disse...

Apesar de não ter viajado para outros estados do país, não consigo ver o gaúcho médio como sendo muito diferente do nordestino médio. O meio urbano, cosmopolita produz criaturas muito semelhantes em quase tudo. Somos brasileiros em política, em religião, em problemas, em costumes e hábitos. Coloque um chimarrão na mão de um paulista e faz ele usar certas peculiaridades linguisticas e tens um gaúcho do século XXI perfeito.

Talvez nas grotas do interior ainda exista alguns espécimes do que um dia foi o rio-grandense: palavra empenhada, uma noção um tanto envelhecida de honratez, culto ao espírito livre e amor ao caballo parejero. Mas é criatura rara, exótica. A República Rio-Grandense se perdeu em algum momento do século passado. Provavelmente quando da criação da Globo...

Ah, sim! Se falares com qualquer "gaúcho" ele vai apontar mil e uma diferenças, todas criadas em sua imaginação. O que mais existe hoje é "gaúcho de CTG". É aquele cidadão que depois do serviço, chega em casa e tira a roupa usual da faina diária e coloca a fantasia predileta - e historicamente incorreta: a tal da pilcha. Meio deprimente. É como chamar um irlandês de "celta" ou um norueguês de "wiking".

Charlie disse...

Concordo que um salário miserável não justifica incopetência ou má vontade. Ou corrupção. Tens toda a razão. Não justifica, mas explica. 700 pila por mês para um serviço policial ostensivo é vergonhoso e temerário.

Não me arrependo não. Amor pelo serviço não basta.